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Ao Delito de Opinião, esse lugar acolhedor e luminoso

Sexta-feira, 20.08.10

 

Um dia recebemos um convite

e relemos as palavras, uma a uma

primeiro para decifrar o seu sentido

depois para as saborear bem

 

Ainda não acreditamos

mas é verdade

e voltamos a ler

uma e outra vez

 

As palavras transformam-se em emoções

tal como as surpresas funcionam

primeiro é como um sonho

depois é como um despertar

 

Uma alegria que já pensávamos impossível

aquela alegria infantil efervescente

e aquele riso abafado

o olhar atónito

patético

mas ninguém viu, só eu aqui

e o convite na mão


Obrigada, queridos Delitos!




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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:52

Coisas simples: sonho ou pesadelo?

Terça-feira, 17.08.10

 

Ontem à noite vi, num dos canais TVCine, o famoso Surrogates com o Bruce Willis. A ficção científica, quando bem elaborada, inteligente e credível, é um meio criativo de nos revelar tendências actuais que se podem concretizar. Só nesse sentido, do real, do verosímil, estas hipóteses têm sentido para mim. Surrogates levanta diversas questões interessantes, mas não é disso que venho hoje falar aqui.

Habitualmente evito filmes com cenas violentas (e há tantos tipos de violência...), há mesmo filmes em que fecho os olhos ou vou dar uma volta até passar aquela mortandade toda. Mas ontem fiquei presa ao écran, palavra! Surrogates tem algumas cenas violentas, mas não nos apercebemos à primeira o quanto violentas são. E porquê? Porque quando se tornam verosímeis, aproximam-se da realidade, da nossa realidade actual.

No meu caso, transformou-se num pesadelo, perseguições e tiros em cenários urbanos em ruínas.

 

Lembrei-me de um post que li recentemente, O Sonho, no Then Come the Ashes, em que percebemos que o sonho é um pesadelo.

 

E descobri que também o Tio Vânia andou a sonhar esta semana... Aliás, além de inspirado, nada demove o tio Vânia. Nem o desmoraliza.


 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:50

Para cada escritor o seu leitor ou vice-versa

Quarta-feira, 11.08.10

 

Ora aqui está um tema que me fascina! Escritores e leitores, leitores e escritores. Primeiro, porque estão tão mal definidos... Depois, porque trazem tantos equívocos e preconceitos atrás...


Bem, vamos começar do princípio:

- li este post do John (João Campos), A polémica do calhamaço, no Delito de Opinião (parece que a polémica é blogosférica e o calhamaço um Bolaño, 2666);

- fixei aquelas frases sábias, "... Os gostos dos leitores são tão diversos que me parece bastante problemático catalogá-los de forma tão simples. ...; ... Uma vez mais, creio que cada um continua a ler o que quer, dentro das suas possibilidades. ...; ...incomoda-me também a contínua 'marginalização' (passe a expressão) de alguns géneros literários que no nosso pequeno mundo literário contam muito pouco - ou nada." (Aqui, o John refere-se à fantasia e à ficção científica);

- lembrei-me das magníficas análises literárias do John, no Jardim de Micróbios, e das suas sugestões de leituras, que registei aqui.

 

Como definiria "escritores" e "leitores"? Para já, não gosto do termo "escritor", escrever todos escrevemos. O que distingue quem simplesmente escreve, regista qualquer coisa num papel ou num écran, de alguém que comunica ideias, teorias, ficção, etc.? Percebem o que quero dizer? Por isso prefiro o termo autor, mesmo que não se trate só de ficção, pode ser um ensaio, um trabalho científico.

E "leitor"? O que simplesmente lê? Como se decifrar uma linguagem codificada fosse suficiente para definir uma relação com o texto!? É que nunca vi o leitor de livros como um receptor passivo de uma qualquer informação. Há uma interacção, a meu ver.

 

O post do John também me despertou para a polémica, não sobre o calhamaço (já o disse aqui ou noutro lugar que, em princípio e por princípio, não gosto de calhamaços, a não ser que me consigam resumi-los ou transformá-los em filme ou documentário. Assim, em 2ª mão, talvez...). De calhamaços, assim que me lembre, só li dois ou três. E agora ando com a História de Portugal do Rui Ramos atrás.

Voltando ao post do John, estou em sintonia com a sua opinião sobre essa relação imprevisível e inexplicável escritores-leitores. Só acho que pode haver, realmente uma influência do factor-publicidade, as pessoas não são completamente imunes a isso. Mas, no geral, creio que a escolha do livro é pessoal.

 

Desde miúda tive a sorte de o meu pai (leitor voraz, ainda hoje) nos contar partes de calhamaços: A Odisseia por exemplo, a cena do gigante tem sempre sucesso garantido na criançada... alguns episódios da Bíblia, o José e os seus doze irmãos, o menino no rio e na corte do Egipto... depois alguns excertos do Jorge Amado, o seu incrível sentido-de-humor, O Capitão de Longo Curso, o homem que sem perceber nada do mar salva, completamente por acaso, o seu barco de uma tempestade... e ainda houve a fase Latérguy, Os Pretorianos, Os Centuriões, a guerra da Indochina, o homem que conta ao companheiro de armas que a mulher tinha gasto todo o dinheiro da comissão para concertar o telhado do castelo também tinha sucesso... mais tarde  o Camus, esse estranho O Estrangeiro, que tanto me incomodou quando o li depois.

Antes de ler, ouvi muitas histórias, vi as cenas, ri-me com as personagens. Penso que a melhor iniciação de qualquer leitor é ouvir primeiro, ver primeiro. É que assim percebe-se melhor que a relação com um qualquer texto é uma relação viva, mutável, apaixonada por vezes, conflituosa por vezes, e sempre sempre pessoal.


Nas minhas primeiras leituras dirigi-me naturalmente para a acção, as aventuras, as personagens, o suspense, a adrenalina. Mas também lia poesia (aí por influência da minha mãe) porque gostava de a dizer, da música própria da poesia. Assim como alguns actos de peças de teatro,  adorava representar.

Só mais tarde me virei para a descrição e observação, a filosofia e reflexão, a crítica mordaz, dos meus autores preferidos. E actualmente, depois de tanta ficção, confesso, prefiro bons ensaios. E agradeço aos que transformam, como disse ali atrás, um bom calhamaço num filme ou documentário. Em 2ª mão, é melhor.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:39

...

Segunda-feira, 02.08.10

 

Dizem-nos que não podemos captar o tempo

que o que passou passou por nós

e eu sorrio só para mim

 

Podemos eternizar esse tempo

essa é a nossa condição

é assim que nos mantemos no mundo

de outro modo tudo nos seria

insuportável

 

Volto por isso a esse tempo

que eternizo dentro de mim

como um filme sem princípio nem fim

mas com uma atmosfera, sempre amorosa

e uma claridade, de eterno verão

 

Nesse filme estão todas as pessoas que amei

e não me esqueço de nenhuma

e estamos num piquenique

e há risos e lembro-me de todas as vozes

todas

as suas entoações únicas e trejeitos muito próprios

e expressões e significados

cumplicidades que animam a alma

 

Não digo adeus

sou como os sioux

e as almas não dizem adeus

estão sempre unidas

 

no meu caso, é nesse filme e nesse piquenique

mas podia ser outro o cenário

tinha era de ser no verão

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:35








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